Sobre a exposição
O Sol sonha.
A cada onze anos, sua superfície entra em agitação. Campos magnéticos se enroscam, manchas se multiplicam, tempestades atravessam a coroa e jatos de matéria são lançados ao espaço. Os astrônomos chamam esse período de máximo solar. Durante alguns meses, o astro parece incapaz de conter a própria energia. Imaginemos outra história.
Uma viajante aproxima-se do Sol. Não o observa à distância. À medida que avança, desaparecem as fronteiras entre névoa e montanha, entre fumaça e líquido, entre pele e mineral. A superfície solar é vista como uma grande paisagem. As erupções lembram florestas em combustão lenta. As manchas assumem a forma de cavernas, organismos e relevos observados do alto.
Mais adiante, a viagem muda de direção. Em vez de seguir para fora, desce. Cruza camadas geológicas, atravessa depósitos de carbono, encontra veios escuros comprimidos durante milhões de anos. Sol e interior da Terra passam a compartilhar a mesma matéria imaginária: calor, pressão e transformação. Talvez seja nesse território improvável — entre o centro da estrela e o centro do planeta — que as obras de Marlan Cotrim estão situadas.
A pintura de Marlan nasce da observação de matérias submetidas ao calor. Fumaça, fuligem, carvão, superfícies queimadas, correntes térmicas, depósitos minerais. Seu interesse recai menos sobre a forma estabilizada dessas matérias do que sobre os movimentos que as produzem. As imagens reunidas em Máximo Solar acompanham processos de ascensão e sedimentação, condensação e dispersão, emissão e retenção. Cada tela registra um instante em que a matéria ainda está se reorganizando.
Como em trabalhos anteriores, a artista desenvolve suas pinturas a partir de uma relação direta com os materiais. Sobre tecidos escuros, o cloro corrói pigmentos, abre campos de luminosidade e produz percursos imprevisíveis. O carvão reaparece como matéria pictórica, adensando superfícies, aprofundando sombras e introduzindo outra espessura temporal na imagem. A pintura emerge desse encontro entre reação química, observação e gesto. Marlan acompanha os caminhos que os materiais propõem, intervém, interrompe, recomeça. O resultado são superfícies que preservam a memória do próprio processo de formação, reconhecendo zonas de opacidade.
O carvão ocupa um lugar central nessa pesquisa. Restos de antigas florestas transformados pela pressão geológica, ele reúne matéria vegetal, mineralização e energia acumulada. Sua presença conecta durações distintas: o crescimento lento de uma floresta, a formação de uma rocha, a combustão de um combustível fóssil.
Em Geontologias (2023), Elizabeth Povinelli observa que a exploração das jazidas de carvão não apenas alimentou a industrialização moderna, mas também ajudou a produzir a própria imaginação geológica da Terra, tornando visíveis estratos de tempo que excedem a experiência humana. Nas pinturas de Marlan, o carvão conserva algo dessa condição. Cada superfície parece reunir diferentes velocidades da matéria numa mesma imagem.
Em Queer Coal: Genealogies in/of the Blood (2015), podemos pensar no carvão não apenas como recurso energético ou objeto geológico, mas como uma matéria que guarda uma linhagem solar. Logo no início do ensaio, Yusoff escreve que os combustíveis fósseis são “bolsões de luz solar” (pockets of sunshine) e possuem uma “linha de descendência solar” (a solar line of descent). Em um contexto brasileiro, essa linhagem solar assume outras camadas. O calor acumulado no carvão remete também às economias coloniais construídas a partir da transformação de paisagens vegetais em energia. Cana-de-açúcar, lenha, carvão vegetal e mineração participam de uma mesma história de combustão que atravessa florestas, plantações, fornos e corpos trabalhadores. A energia armazenada na matéria nunca foi apenas uma questão física; ela também organizou territórios, formas de trabalho e regimes de extração.Ao conectar, Sol – planta – carvão, vai produzindo uma genealogia energética que atravessa vida vegetal, combustão, mineração e temporalidade geológica.
Duas pinturas apresentam corpos solares em sua máxima. Não se tratando de representações astronômicas, mas de exercícios de aproximação em camadas de imagem. O Sol surge como organismo em permanente mutação, superfície convulsiva atravessada por manchas, correntes e explosões. Em vez da esfera homogênea que frequentemente aparece nas imagens científicas, encontramos uma estrela marcada por turbulências internas, movimentos que alteram continuamente sua aparência.
O máximo solar designa justamente esse momento de intensificação. A atividade magnética aumenta, as erupções tornam-se mais frequentes e a superfície revela com maior evidência suas instabilidades. A possibilidade de imaginar o Sol como paisagem encontra um paralelo em In the Year of the Quiet Sun (2013), do Otolith Group, trabalho que acompanha fenômenos solares para pensar formas de duração que escapam à escala humana. Em Máximo Solar, a estrela também deixa de ocupar a posição de pano de fundo cósmico. Ela torna-se território, matéria observável, campo de imaginação.
Ao redor desses sóis, outras pinturas expandem uma investigação sobre a fumaça. As formas que percorrem as telas podem lembrar colunas térmicas, nuvens vulcânicas, sistemas fluviais observados do alto, organismos microscópicos ou formações minerais. Nenhuma dessas imagens se estabiliza por muito tempo. As pinturas sustentam múltiplas escalas simultaneamente. O que parece uma atmosfera pode ser também um relevo. O que lembra uma paisagem geológica pode ser um corpo celeste.
Essa ambiguidade é reforçada por um movimento recorrente na exposição. Muitas das formas parecem subir; outras parecem afundar. Em alguns momentos observamos uma coluna de calor ascendendo. Em outros, uma matéria escura sedimentando lentamente. A orientação permanece incerta. As telas acompanham um fluxo contínuo entre superfície e profundidade, entre emissão e condensação. O mesmo movimento conecta fumaça, lava, carvão, nuvem e estrela.
A fabulação surge justamente desse acompanhamento atento da matéria. As imagens não procuram ilustrar um fenômeno específico. Elas se desenvolvem num território em que observação, memória e imaginação compartilham a mesma superfície. As manchas, fissuras e adensamentos que atravessam as pinturas evocam geografias ainda sem nome, formas de vida em gestação, paisagens que pertencem simultaneamente ao passado profundo da Terra e a futuros ainda desconhecidos. Cada obra parece registrar um mundo em formação.
Essa imaginação térmica encontra uma condensação singular em Sono do Dragão (2026), única escultura da exposição. Modelada em argila preta, a obra aproxima observação da natureza, memória mitológica e estudo da matéria. O dragão aparece adormecido, mas sua quietude não indica ausência de força. O repouso guarda energia acumulada, semelhante à pressão que antecede uma erupção vulcânica ou à atividade invisível que antecede uma tempestade solar. A escultura introduz outra dimensão importante na pesquisa da artista: a possibilidade de perceber a paisagem como entidade viva. Montanhas podem assumir formas animais, nuvens podem adquirir corpos, veios minerais podem tornar-se criaturas.
Entre o brilho das estrelas e a escuridão fóssil do carvão, entre a fumaça que ascende e a matéria que sedimenta, as obras percorrem territórios onde geologia e cosmologia compartilham uma mesma história. O calor que emerge do interior da Terra, a energia emitida pelo Sol, o carbono armazenado nas rochas e os movimentos atmosféricos que atravessam o planeta aparecem aqui como partes de um mesmo ciclo de transformação. Ao habitar essas imagens, descobrimos que o centro da Terra e a superfície do Sol talvez não sejam lugares tão distantes. Ambos pertencem a uma longa história de combustão, metamorfose e imaginação.
Ariana Nuala
Obras
1700°C
Marlan Cotrim
Segredo de fumaça 01
Marlan Cotrim