Sobre a exposição
Entre o céu e a terra. Entre a água e o ar
A exposição Harpias e Sereias coloca em diálogo as obras de Isadora Almeida e Renato Rios. Percebe-se que a mostra foi construída na forma de encontro(os) – entre artistas com linguagens próprias e em desenvolvimento; um aceno à amizade sensível que se presta para experimentações em suas obras; e disposição para aproximações entre a cultura ocidental e a brasileira.
Nessa mostra, com obras de pequeno formato, também se encontram o grego Homero (Odisseia, com Ulisses viajando de ilha em ilha e seus encontros com as sereias) e o inglês William Shakespeare (A tempestade, onde escreveu que “somos feitos da mesma matéria de que são feitos os sonhos”). E nesses clássicos se encontram aspectos regionais do país.
Neste sentido, percebe-se que os trabalhos desta mostra são feitos a partir de sonhos ou de vestígios da memória – seres imaginários habitantes de ilhas fantásticas. E os dois artistas aproveitaram a oportunidade para experimentações e avanços de suas respectivas linguagens.
Almeida e Rios possuem origem comum, o Centro-Oeste brasileiro, que influencia a vivência desses artistas que atuam fundamentalmente a partir da pintura e, nessa exposição, incorporam metais como suporte e exercitam o tridimensional.
Nas pinturas de Isadora Almeida estão representadas terras distantes, na forma de ilhas colocadas em perspectiva panorâmica com forte presença da água circundando montanhas. Em outra série, encontramos paisagens onde são enquadrados riachos e lagoas. As pinturas das ilhas emanam um certo estranhamento, originado na sensação de isolamento da terra avistada e dos suportes de cobre e alumínio utilizados nelas, que imprimem aos trabalhos cores e texturas inesperadas e metalizadas. A transição do suporte tela para suporte de metal permite que Almeida situe suas ilhas em paisagens feitas com mínimos recursos pictóricos que escondem seus moradores e deixam ausentes a vegetação e a fauna. Ganham proeminência as formas onduladas das montanhas no horizonte e a potente massa de água pintada em primeiro plano.
Nos últimos anos, Renato Rios vem trabalhando em suas pinturas com representações de pequenos pássaros com cabeças humanas. Nelas, esses tipos de esfinges possuem um rosto duro, de um cinza alumínio ou um dourado cobre. Entretanto, essas pinturas de austeras e imperiais cabeças de homens e mulheres convivem em harmonia com corpos delicados e coloridos de aves, com plantas verdejantes (muitas vezes o gênero Artemísia) e com radiantes estrelas azuladas.
Tais figuras presentes há longo tempo nas pinturas pediram para sair da tela e ganhar o espaço. Nessa exposição, Rios apresenta estes novos trabalhos que nasceram da experimentação de passar do suporte bidimensional, a pintura sobre tela, para o tridimensional, criando impactantes volumes de bronze que moldam e justapõem partes de corpos humano-animal-bicho. Seres híbridos pensados e montados a partir de fluxos de sonhos e mitos. Os inusitados seres ganham formas semelhantes às harpias, mas agora, ao adquirirem volume e autonomia, separam-se da floresta. Em paralelo, talvez para compensar este afastamento, o artista produz tridimensionais de vegetações descortinando uma botânica híbrida.
Emergem na exposição pequenas esculturas de entidades esculpidas com corpos de aves e cabeça humana. O metal que estava apenas nas cabeças representadas na pintura, agora invade por completo a figura tridimensional.
Pode-se imaginar que todos estes seres híbridos (animais ou vegetais) compõem os habitantes das ilhas criadas por Almeida. Rios fornece às paisagens de Almeida a sua fauna e flora: assim, ganham moradia as entidades da natureza que circulam entre o céu e a terra. E tais ilhas acolhem bem estes seres fantásticos: emergem as paisagens que se situam entre a água e o ar.
Os dois conjuntos de obras relacionam-se nas diferenças e nas aproximações. Ambas as produções resultam de uma certa alquimia, agora pelo uso e reações de metais e pelas fórmulas de pensamento mágico que orientam suas criações.
É possível perceber nesses trabalhos de Almeida e Rios, mais no caso do segundo artista, aspectos do Surrealismo, na vertente europeia, e do Realismo Mágico latino-americano. Desta forma, em ambos, os trabalhos expressam um mundo onírico, um território de sonhos, não só pelas referências à mitologia ocidental, mas também por se abrirem à percepção de uma cosmogonia popular brasileira. A terra e o céu de Renato Rios e a água e o ar de Isadora Almeida poderiam muito bem compor o cenário da maior ave de rapina da Amazônia, a Harpia harpyja; ou ser espaço no qual vive a sereia Iara/Uiara, de cantar hipnótico; ou ainda o lugar do boto-cor-de-rosa, que ganha o corpo de peixe ou o corpo de homem.
Miguel Chaia
São Paulo, julho de 2026
Artistas participantes
- Isadora Almeida
- Renatos Rios
Obras
Cila
Isadora Almeida
Harpia 1
Renato Rios
Harpia 2
Renato Rios
Os pés molhados sobre a terra enxuta
Isadora Almeida
Harpia 2
Renato Rios
Os dias
Isadora Almeida