Sobre a exposição
Os seres das olarias, unidos na combustão radical do barro, dos esmaltes e dos pigmentos, extravasam o drama nas faces de suas retrações e expansões, no derretimento das superfícies e na destruição das cores. A evaporação de toda água, condição para o endurecimento, arrasta perdas, fissuras, desvios.
A matéria plástica, que precede e dá vida aos seres cerâmicos, transformada, reúne-se aqui com seres metálicos, xilóides e híbridos, junto ao estouro de ovos que, abrindo-se em tentáculos vivos, ocupam o espaço como uma cena.
Em entrevista ao arquiteto Geraldo Gomes, em 1988, o ceramista Francisco Brennand grifou o modo como sua prática artística estava integrada a um pensamento arquitetônico: “Eu diria até que a visão geral do que eu estou fazendo neste espaço é a visão cenográfica de um pintor. A propósito, eu disse ao cenógrafo do Teatro Scala de Milão, que tudo isto aqui era um grande cenário. Como ele discordou, tive então vontade de dizer-lhe: ‘Se não é um cenário é o próprio drama’. É o elemento de criação transformado no próprio drama, um resultado que ultrapassa o próprio artista.”
A fala abre uma arena onde o drama, para além de operar nas camadas de representação da obra, em suas faces e figuras, é fundamento desse elemento material de criação. De um lado, a cerâmica sob as condições extremas do fogo, onde a forma se expõe a contrações, colapsos e vitrificações imprevistas. De outro, o cenário entendido como ambiente ativo, onde as formas se dispõem, se enfrentam e se deixam ver. Entre o interior incandescente do forno e a abertura do espaço, instala-se uma tensão contínua, sem garantia de estabilidade, onde o humano se põe em perspectiva e relação.
O espaço da cena, portanto, adensado a partir dessas relações, apresenta obras que, de modos singulares, instauram arranjos de instabilidade entre corpo e entorno, carregadas das marcas de processos anteriores que seguem reverberando na matéria. Reunindo trabalhos que partem desse regime de tensão e operam como campos onde forças se organizam provisoriamente e articulam volumes, vazios e direções. “O Drama da Forma” investiga o dilema da matéria junto às obras de Bel Ysoh, Chacha Barja, Francisco Brennand, Marina Woisky, Raphaela Melsohn, Ulrik López Medel e Vicente do Rego Monteiro.
Agradecimentos especiais à Camila Bechelany, à Marinez Teixeira e à Oficina Francisco Brennand.
Artistas participantes
- Bel Ysoh
- Chacha Barja
- Francisco Brennand
- Marina Woisky
- Raphaela Melsohn
- Ulrik López Medel
- Vicente do Rego Monteiro
Obras
A face grega
Francisco Brennand
Cavalo duplo
Marina Woisky
Lonely arch
Raphaela Melsohn
Ovo estouro
Chacha Barja
Atirador de Arco
Vicente do Rego Monteiro
Cama y Humo descalzo
Ulrik López Mendel
Casulo (em decomposição)
Bel Ysoh