Em breve

Samara Paiva: Habitual

16.05 – 13.06.2026

Curadoria

Ariana Nuala

Sobre a exposição

Nada nessas pinturas se organiza para ser rapidamente compreendido. O olho entra como quem chega atrasado a uma cena que já estava acontecendo e continuará depois. Sem início claro, sem resolução — o que se impõe é uma permanência sustentada por um ritmo próprio. O que se constrói escapa da ideia de interior ou de figura em repouso; trata-se de um campo onde o tempo se espessa. As imagens, juntas, operam em uma espécie de câmera lenta contínua, como se cada gesto tivesse sido desacelerado até quase perder sua função narrativa. Em vez de um instante capturado, emerge uma duração habitada.

Essa dimensão desloca a imagem de qualquer lógica de acontecimento. O tempo deixa de conduzir a cena e passa a se acumular nela. A progressão cede lugar a uma duração insistente, como se o que estivesse em jogo fosse menos o que acontece e mais quanto tempo um corpo sustenta sua presença. A imagem se aproxima de um plano: algo que exige permanência, que retém o olhar, que devolve ao espectador a responsabilidade de sustentá-lo.

E sustentar o olhar implica posição.

Essa exigência se torna mais evidente quando nos aproximamos do processo da artista. Em visita ao ateliê de Samara Paiva, surgem recortes de fotografias — uma pesquisa arquivística, uma coleção em curso, quase silenciosa — orientada por uma busca precisa: retratos de mulheres negras fora dos regimes habituais de tensão, colisão ou fetichização.

Os corpos que atravessam essas pinturas operam em outra chave. Deitados, apoiados, recolhidos, afirmam um estado de presença que não se organiza pela exposição. Há um fechamento ativo, um corpo que permanece consigo, que estabelece seus próprios limites de visibilidade. Esse deslocamento incide diretamente sobre a história da representação de mulheres negras, reiteradamente produzidas como corpo em função: corpo que serve, que se move, que responde. Aqui, outro regime se estabelece, outro sentido se constrói.

O repouso assume estatuto de condição. Carrega densidade, peso, duração. Exige sustentação. Essa sustentação passa pela matéria da pintura. Os tons deixam de organizar profundidade ou conduzir o olhar e passam a estruturar o espaço. Âmbares, vermelhos escurecidos, marrons saturados, superfícies que evocam madeira, resina, algo entre o orgânico e o elaborado. Em vez de brilho imediato, há uma qualidade balsâmica, como se a cor operasse na preservação, mantendo algo vivo em suspensão.

Se esses tons, na tradição pictórica, já estiveram ligados à ideia de nobreza, sacralidade ou valor, aqui atuam de forma mais ambígua. Sustentam uma intensidade baixa e contínua, próxima do que Tina Campt descreve como imagens que operam “quietly” [silenciosamente], insistindo sem se oferecer ao espetáculo, seja nas minúcias de um espectro colonial ou em outras evocações. Assentam, envolvem, integram. Criam um ambiente onde o corpo se mantém em continuidade com o espaço.

Isso reconfigura a ideia de casa.

A casa se produz a partir do corpo. A permanência ativa o espaço, faz com que ele emerja. Cada gesto — deitar, apoiar, ficar — participa dessa construção. A figura não ocupa um lugar prévio; ela o instaura.

Uma arquitetura mínima, instável, sustentada na repetição.

É nesse ponto que o título Habitual ganha espessura. O habitual não aparece como aquilo que já está dado, mas como aquilo que exige repetição até se tornar possível. Tornar habitual o descanso, o cuidado de si, o direito ao próprio tempo — tudo isso carrega uma dimensão histórica que não pode ser ignorada. Não se trata de uma cena íntima isolada, mas de uma reconfiguração silenciosa de valores: o que pode ser visto, o que pode durar, o que pode simplesmente existir sem justificativa.

A presença de Oxum atravessa esse campo como um princípio mais do que como imagem (no âmbito das cosmologias iorubás, associada às águas doces e às práticas de cuidado, valor e continuidade). Não há necessidade de figurá-la porque o que está em jogo é o ensinamento: o cuidado de si como condição de continuidade, a beleza não como excesso, mas como estratégia de preservação. Voltar-se para si não como fechamento, mas como algo que se fundamenta.

O que essas pinturas produzem, então, não é apenas uma imagem.

É um campo onde algo se sustenta.

Algo que, ao permanecer, começa — pouco a pouco — a se tornar possível.


Ariana Nuala
Curadora