Em breve
Juliana Lapa: Olga não me deu nada como herança
Curadoria
Galciani Neves
Sobre a exposição
O filho de 5 anos de M.R.S. morreu após cair de uma altura de aproximadamente 30 metros. Durante o tempo de investigação e julgamento pela morte da criança, M.R.S. se graduou em direito para estar mais atenta aos meandros do processo e defender outras tantas vítimas, como ela e seu filho, de atrocidades como esta. A mãe de A. A., que tem seu corpo marcado com cicatrizes de 15 facadas, encorajou a filha a se empoderar na luta contra o feminicídio e a expor sua realidade, para que o “não” de mulheres seja ouvido e respeitado e para que crimes não sejam simplesmente esquecidos. A família e a companheira de M.F., após a condenação de quem arquitetou e executou o crime que a matou, seguem lutando em defesa da memória das vítimas, pelo direito à verdade e pela justiça plena. “Celebrar este passo é também reafirmar a memória, fortalecer a luta por justiça e democracia”, afirmam.
Diante de acontecimentos como estes, além de permanecermos desamparadas e incrédulas na justiça deste país, vemos mulheres que, apesar de perdas irreparáveis, disponibilizaram seus corpos e suas vidas para quebrar ciclos de violência e constituir condições saudáveis para que as gerações seguintes desfrutem de suas mulheridades. Algumas perguntas ecoam: até quando vamos precisar lutar pelo óbvio? Até quando seguiremos com força para resistir? E enquanto isso, quantas de nós ainda perderemos? E enquanto nossas vidas e corpos seguirem sendo reduzidos a estatísticas, que espaços nos restarão para que possamos criar nossas memórias distantes dos arquivos e das manchetes de dor?
Pensemos: para responder questões complexas como estas colocadas, a arte não deve ser transformada em meio ou estratégia, como alguns poucos insinuam de modo vazio e irônico, ou nos sujeitaríamos a instrumentalizá-la. Mas perceber a arte como uma esfera pública de discussão e como uma atividade social é aderir de maneira complexa à causa e angariar forças e frentes de debate e luta. Difícil elaborar essa transdisciplinaridade sem incorrer em funções reducionistas, mas talvez um caminho possível para perceber os tantos elos e interações entre a arte, a cultura e a política seja nos conectar com os processos e intencionalidades de artistas, como Juliana Lapa, cujos trabalhos evidenciam que a arte é um gesto imerso na vida, inseparável dos problemas e dilemas, uma ação de esgarçar o cotidiano até que algo surja e nos reposicione ética, política e afetivamente diante da vida. A arte, pensada e praticada assim, pode ser compreendida como um campo em que aturdimento e perplexidade se justapõem, em que nos damos conta da completa ausência de sentidos que nos acomete diante do que vivemos. A arte pode nos dar um fio de fôlego, que seja, para não sucumbirmos, pode ser um lugar não para dar conta de arquitetar respostas, mas para elaborar outras tantas indignações, pois não se trata de salvar ou curar (evitemos o messianismo e a leviandade).
Para adentrar essas hipóteses, é preciso compreender um pouco do percurso e da poética da artista Juliana Lapa: nascida em Carpina (Zona da Mata de Pernambuco), estudou direito e esteve por alguns anos envolvida com a política, com movimentos de luta e direito à terra. A vida e o cinema foram suas escolas, e o desenho constituiu as primeiras pontes entre sua prática artística, a natureza, a espiritualidade e os exercícios de construção da memória e os desdobramentos que esta ganha no passar de um corpo a outro.
Nessa abundância de assuntos e ofícios, os entrecruzamentos entre campos seriam mesmo inevitáveis. Assim, seu trabalho arrasta e conjuga elementos de todas essas instâncias, numa experimentação poética que cria territórios visuais para que a imaginação corra livre, desafiando a linearidade do tempo, os comandos opressivos do machismo e do patriarcado e a rigidez dos universais da arte (a citar: perspectiva, distinção hierárquica entre figura e fundo, gêneros da pintura).
Em Olga não me deu nada como herança, primeira individual de Juliana Lapa em São Paulo, os trabalhos ocupam a Galeria Claraboia formando uma espécie de labirinto, que convida o público a constituir percursos sinuosos por entre as obras e fabulações visuais. Prescindindo das paredes, as obras de Lapa chamam a ver de perto, em detalhe, as minúcias das imagens, personagens e cenas construídas pela artista, ao passo que também conferem uma dinâmica espacial em que as paisagens que estão contidas nas obras, simultaneamente, elaboram um todo paisagem, que propõe breves caminhadas e pausas para se estar com as cenas.
Os trabalhos de Juliana Lapa vêm se configurando como uma mistura fluida entre materiais, reconhecíveis e também não-habituais na arte, e linguagens que se manifestam como invenções experimentais muito singulares. Seus suportes são, em sua maioria, o compensado (chapa composta por lâminas sobrepostas de madeira), que recebe uma preparação com massa corrida, comumente usada em construções civis. Juliana acrescenta ao suporte camadas de massa corrida policromada. Uma sobre a outra, cada cor ocupa uma camada, que será raspada ou extraída. Uma ou outra se tornará visível. Baixos-relevos e reentrâncias vão revelando cores e formas para dar a ver uma imagem e uma complexa composição cromática em camadas que se avizinham e se interpelam de diferentes maneiras, a depender da profundidade do gesto que escavou o suporte. As cores entram em convivência. Pontas secas, estiletes, espátulas, bisturis, lâminas e instrumentos pontiagudos extraem o material, deixam rastros e veios que são incorporados às imagens. Para nomear este procedimento de extração como gesto artístico, Juliana recorreu à estratigrafia: técnica de conservação e restauro de prédios, que analisa e identifica camadas de pintura e de sobreposição de materiais que se sucedem ao longo do tempo.
Outras camadas de cor vão sendo adicionadas ao longo do processo. Tinta a óleo, tinta acrílica, pigmentos, grafite e lápis de cor também entram nessa dança. Formas quadradas e retangulares, acabamentos ovalados e triangulares e retábulos recebem uma miscelânea de desenho, pintura, estratigrafia e escrita “a-semântica”. Esta última pode ser compreendida como uma quase caligrafia, que se configura entre a garatuja e o desenho, e que, se espalhando pela imagem, às vezes deixa escapar algo de legível ou aponta para um idioma inventado. A artista reverencia William Blake e seus procedimentos de unir texto e imagem, sem graduá-los em níveis de importância. Juliana Lapa coloca essas experimentações a serviço de suas construções cênicas. Figuras centrais, histórias paralelas na margem do suporte, pequenos acontecimentos simultâneos, ações contíguas relampejando no espaço imagético, cujos tempos colidem e compõem a dramaturgia pictórica da artista.
Em suas obras, mulheres são personagens protagonistas e estão desempenhando ações enquanto traçam vínculos com as paisagens: dançando, caminhando, voando, amamentando, fazendo brotar estrelas, engolindo lugares, jorrando tripas, correndo com lobos, acendendo fogueiras, abraçando companheiras, acariciando vermes. Seus corpos incitam rituais e bruxarias, guardam o mundo, acolhem as crias, festejam o tempo, bradam línguas, incendeiam lamúrias, rogam aos ventos, se juntam em festa. Com seus dedos fazem tudo brilhar e queimar. Peles de cobra, corpos dourados e cintilantes, tetas venenosas, bustos esburacados, pernas feitas de água, cabelos que tecem histórias se metamorfoseiam e escorrem por montanhas, céus e infernos, guiando-se pelo enorme desejo de ser o que querem.
Em trabalhos como Hora mágica da vida, as cenas parecem se dar como uma ação contínua, flagradas por uma câmera em movimento panorâmico. E assim acontecem ao mesmo tempo: um corpo de mulher é paisagem para uma erupção de uma outra mulher, céus flamejantes, e abaixo de tudo uma cena paralela: um outro corpo reage a um véu. Em Trabalhos das entranhas, uma personagem meio bruxa, meio “monstra” assusta e nos encara. Ela está envolta em uma trama: entranhas, corais, escritas. E, por entre as brechas do seu corpo-paisagem, há pequenas brechas onde cenas acontecem: mulheres trabalham, seguram uma bacia, dão alento e colo. É o corpo da mulher em polvorosa, profanando as regras e se livrando do contorno do capitalismo, como nos explica em profundidade Silvia Federici: “se não há controle sobre o corpo da mulher, não há controle da força de trabalho”. Seria a grande chance do mundo para que tudo pare, ou melhor, para que se inaugure um outro desenho de humanidade.
E de onde vem todo esse repertório de imagens, acontecimentos, devaneios de Juliana Lapa?
De processos de tradução e fabulação? De modos de ver o mundo e reconfigurá-lo em vivências artísticas? De experiências? De atravessamentos? Da convivência com tantas mulheres e com seus anseios? De tudo aquilo que um dia se testemunhou e foi preciso esquecer? Voltemos, então, ao território da arte: onde uma temporalidade de criação constrói acolhimento para coisas intangíveis, misteriosas, avassaladoras; onde uma artista é, ao mesmo tempo, livre e comprometida com inventar o inexplicável, o inexprimível, o implausível, para narrar as tessituras da existência; onde uma artista também se constitui como mulher, enquanto inventa procedimentos de criação de outros reais; onde uma mulher tem o direito de refazer memórias (as suas próprias e as de outras), já que mulheres, a todo o tempo, têm sua potencialidade de criar e guardar memórias expropriada.
Sim, pois a memória é também um desses campos marcados pelo gênero. Mulheres sobrevivem no buraco do tempo, precisam contentar-se com o vazio, para apagar o que passou e conseguir seguir adiante, pois essa é a alternativa ao trauma, à violência, à usurpação, à estigmatização. O que vivem inscreve-se no corpo, onde a liberdade deveria sem custos prevalecer. Talvez seja nesses hiatos de tempo, que precisaram um dia ser esvaziados, que Juliana Lapa construa suas epifanias visuais. E novamente a arte, a de Juliana, nos diz que tudo passa, rasgando, ferindo, mas passa, e semeia terra para as muitas Olgas renascerem-se. E Olgas não são personagens fictícias. Estão por aí aos cântaros, trabalhando, governando lares, na labuta do cuidar de si e de tudo. Entristecidas, emudecidas, por vezes, mas soprando seus passados para longe, desobedecendo as convenções e os papéis que lhes foram reservados. Olgas estão erguendo castelos aos seus amores, lutando para que as suas tenham direito à memória, a espalhar histórias, a mirar a imensidão do mundo (“la forma perpetua del asombro/ renovada en el ir y venir de la ola/ consubstancial al giro de la espuma/ y el silencio, una simple condición de las cosas”*), a reviver tudo aquilo que desejarem pelo puro e simples prazer de relembrar.
Galciani Neves
* Castellanos, Rosario. Apuntes para una declaración de fe, 1948.
Obras
A fuga dos bichos
Juliana Lapa
Hora mágica da vida
Juliana Lapa
Imã (pintura arrepiada)
Juliana Lapa