Em breve

Paulo Pasta: Gravuras de Barcelona

03 a 26.09.2026

Sobre a exposição

A série Gravuras de Barcelona, de Paulo Pasta, como o título indica, foi produzida no ano passado na capital cultural da Catalunha. Os nove trabalhos saíram da gráfica Polígrafa, referência mundial que imprimiu obras de Pablo Picasso, Joan Miró, Max Ernst e Francis Bacon, entre mais de três centenas de artistas históricos. Sobre a excelência técnica dessas litogravuras e gravuras em metal, portanto, seria redundante falar. No entanto, é preciso enfatizar o papel da série na obra gráfica de Pasta, que se diferencia da pictórica em muitos aspectos.

Em primeiro lugar, o método construtivo das duas linguagens não é o mesmo. As gravuras de Barcelona não reproduzem pinturas já existentes. Elas têm vida autônoma. A estruturação espacial, no caso da gravura, tenta equilibrar a ordem cromática que vai do opaco ao incandescente, recorrendo à ortogonalidade arquitetônica da sua pintura, mas suprimindo o relevo das telas. Cria cores por força dos processos químicos da litogravura e das gravuras em metal, que retêm a tinta e revelam uma textura aveludada no papel.

O sentido é claro: essa construção irradia uma vibração temperada, serena. Dela resultam composições que são abrigos contra a estridência do mundo contemporâneo. Nesta série de Barcelona, Pasta recorre aos mesmos temas da sua pintura (cruzes, portais) sem replicar as sobreposições cromáticas das telas. A linguagem é outra, a técnica é outra, mas a integridade do artista é a mesma. As mudanças lentas, sólidas, que caracterizam sua arte há mais de 40 anos anunciam, na série das gravuras catalãs, uma transição próxima à descrita por Walter Benjamin em seu livro póstumo Passagens. Nele, o filósofo alemão reflete sobre o advento de uma nova sociedade, nascida com a arquitetura das galerias parisienses antecessoras dos shoppings.

No caso de Pasta, essa “passagem” para uma nova sociedade, mais atenta e sensível, se dá pela cor: a sobreposição de tempos históricos se traduz por uma paleta física que vem do pós-impressionista Pierre Bonnard, passa por Richard Diebenkorn e chega a Brice Marden, ou seja, acompanha a mutação cromática que vem do século 19, passa pelo discípulo americano de Henri Matisse, e chega aos contemporâneos.

Em relação às formas, o que parece a cruz do cristianismo, nessas gravuras, é, na verdade, um arranjo ortogonal de uma linha vertical que sustenta a linha horizontal, ou seja, segue o mesmo princípio que orientou Piet Mondrian a construir há um século seu universo harmônico e abriu caminho para as faixas do irlandês Sean Scully.

Desnecessário lembrar que Pasta, além de pintor, é um grande mestre, que estudou todos esses pintores e encontrou o próprio caminho ao refletir sobre a presença física da cor e sua correspondência imaterial por meio da saturação. Como mostram suas gravuras catalãs, a “passagem” de Pasta representada por seus portais convida o espectador a penetrar num mundo silencioso, de contemplação.

Ao trocar o repertório metafísico por um mais simples, nos anos 1980, concluindo que a superfície da tela era o que importava, Pasta chegou aos anos 1990 com uma pintura afirmativa, de desconcertante planaridade topográfica. Nas últimas três décadas, conquistou um novo público, dentro e fora do Brasil, com sua densidade cromática que não esconde as formas do mundo. Antes, revela essas formas que parecem eclipsadas pela luz, porque as cores, afinal, guardam essa luz. Elas são a própria luz, que emana da paleta física e sofre mutação. É a luz dos ícones de Andrei Rublev, das figuras sagradas de Rembrandt, dos interiores de Matisse e, agora, destas gravuras de Barcelona.

 

Antonio Gonçalves Filho

Obras

Sem título

Paulo Pasta, 2025

Sem título

Paulo Pasta, 2025

Sem título

Paulo Pasta, 2025

Sem título

Paulo Pasta, 2025