Construção no vento
Curadoria
Luisa Duarte
Expografia
Daniela Thomas
Construção no vento
Se em uma construção habitualmente predominam materiais sólidos, como pensá-la no vento? Que tipo de construção pode advir do que é volátil? Nuno Ramos, em um ensaio sobre a obra de Mira Schendel, associa a produção da artista a uma “construção no vento”. Ramos conta que a artista se sentia atraída pelo modo como Richard Long, com uma “única linha de pedras enfileiradas”, conseguia alterar todo o campo da paisagem: “acho que Mira faria isso com o ar, com o vento”. A presente exposição toma o paradoxo de seu título enquanto imagem propulsora, fazendo-a produzir ressonâncias através de três núcleos que se interpenetram, criando um desenho transversal pelo espaço.
Gestos mínimos reúne trabalhos que, ao adotarem certa economia formal e gestual, sublinham aquilo que nos chega através de movimentos nos quais há um gasto mínimo de energia aliado a um intenso potencial de reverberação. Ativar o vazio, inspirado em afirmação de Mira, agrega obras capazes de ressignificar a ideia de vazio como aquilo que existe e afeta; Paisagens rarefeitas, por sua vez, apresenta obras que tensionam o gênero clássico da paisagem, oferecendo representações onde o que se vê opera no limiar da visibilidade.
De diferentes formas, os núcleos acima nos dão notícias do enigma próprio à suavidade, qualidade que parece faltar em uma época guiada por um constante apelo ao pragmatismo, sendo, portanto, dependente de resultados sempre tangíveis. Em um ensaio sobre a suavidade, a psicanalista Anne Dufourmantelle afirma: “Uma pessoa, uma pedra, um pensamento, um gesto, uma cor… podem expressar suavidade. Como podemos abordar sua singularidade? Aproximar-se é arriscado para aqueles que desejam defini-la.” A suavidade, tal como o vento, é feita de uma materialidade que não pode ser apreendida: “Suavidade do inefável. Beleza daquilo que não aparece na aparência dada das coisas e dos fenômenos, daquilo que não poderá ser tocado num rosto. A suavidade mostra a distância entre o que está ali e o que escapa.”
Se características da produção de Mira Schendel surgem aqui como uma bússola central para a curadoria, o modo como Leonilson abordava os vazios em sua obra também comparece como um vetor importante. Em um gesto que caminha até os antípodas da assepsia vinculada ao monocromo branco na história da arte, o artista inseriu nos espaços em branco a dimensão da dor e do desejo através das suas inscrições plenas de poesia.
Ao conferirmos ênfase aos gestos mínimos, aos vazios, àquilo que se dá no limiar da visibilidade e, ainda, ao campo de desejo, não buscamos criar uma oposição ao excesso ruidoso e ao regime da hipervisibilidade que imperam no mundo que nos cerca, como em uma espécie de busca redentora. Se trata, antes, de instaurar uma espécie de contrapeso em meio à tamanha captura da atenção, da experiência do tempo e da subjetividade em nossos dias.
Luisa Duarte & Daniela Avellar