Em breve

Gi Monteiro: Umbra

06.10 a 14.11.2026

Texto Crítico

Renato Menezes

Exposição

Gi Monteiro: Umbra

“Ce qu’il y a de plus profond dans l’homme, c’est la peau.”
Paul Valéry, L’Idée fixe (1932)

Na pesquisa de Gi Monteiro não cabe linhas retas. Mais do que uma decisão geométrica trata-se, no fundo e no raso, de uma questão de natureza filosófica que parece a todo tempo encontrar respaldo nos elementos que constituem a função operatória do Pli (a dobra), segundo a definição que a ele deu Deleuze. Ao contrário da linha reta, que pressupõe uma exatidão de pretensão racionalista, sobre a qual se deposita também certa expectativa de um encontro sempre adiado com a objetividade, a dobra, por sua parte, admite a irregularidade e as torções do drama barroco, a condensação simbólica da alegoria, os contrastes abruptos das áreas claras sobre as escuras, a imprecisão, a transversalidade, o mise-en-abîme (o efeito de espelhamento infinito). A dobra é, por essas características listadas acima, mais afeita às curvas do inconsciente e aos nós da contradição, assim como frequenta, com mais conforto e facilidade, o campo da magia e o mistério das formas potenciais, em estado de latência. Motor da força diagonal, descontínua, orgânica, manifestação da pulsão da abundância, a dobra aparece no trabalho de Gi Monteiro através da linha das letras cursivas “e”, “s” e “c”, cujas grafias sugerem um movimento de ida e retorno contínuos, assimilável, no limite, ao fluxo das ondas do mar — motivo constante da arquitetura barroca —, mas também à circulação do sangue pelos dutos do corpo. Entre as volutas e conchas e os vasos sanguíneos há em comum não apenas a noção de fluxo, do qual decorre a dança (prática que a artista vem nutrindo em seu processo criativo), mas também outro movimento de mais difícil apreensão, ligado ao incapturável, ao inefável, ao devir.

É precisamente dessa ambiguidade que emerge uma das séries mais coesas já realizadas por Gi Monteiro: Nevoeiro, iniciada em 2025. Nela, a artista opera duas ações sequenciais, o desenho e o recorte, sendo a segunda determinada pela primeira. As formas, geradas por traços longos e curvilíneos sobre lona negra de algodão, resultam fechadas em si mesmas, criando zonas de cores sutis, quase metálicas, que aparecem residuais no contraste com o fundo noturno. Isso remete, por um lado, à própria formação da nuvem como água condensada, estágio intermediário entre a evaporação e a precipitação: seu único momento tangível é aquele que as mãos não podem tocar, restando aos olhos imaginar sobre elas figuras que respondam às nossas intuições (e, a bem dizer, intenções). Por outro lado, essas formas fechadas também não nos deixam escapar de sua dimensão mais próxima e, a um só tempo, mais distante do nosso cotidiano: as nuvens de dados, que armazenam as milhares de informações que produzimos em um lugar imaginário, virtual, desmaterializado, mas seguro, livre de ataques ou desfazimento. Nevoeiros também dizem respeito à distância: de perto, nos encontramos na iminência de estarmos dentro; de longe ele finalmente existe, mas a experiência com o fenômeno será dessa vez unicamente contemplativa. Há, nessa série, um dado de imprecisão, produto da aproximação entre a forma barroca, dramática, da forma fluida da água condensada, fazendo surgir nela as energias reelaboradas em outras duas séries, bastante coesas entre si: Sementes e Recém nascida.

Se em Sementes Gi Monteiro se interessa pela forma contida do óvulo maduro e já fecundado da planta vindoura, portanto em seu estado de latência de vida, em Recém nascida, o fulcro de sua pesquisa parece se reorientar para o oposto complementar desse primeiro fenômeno, isto é, os instantes iniciais de contato entre o corpo e o “espaço fora”, a primeira experiência de liberdade. Entre uma série e outra percorre, curiosamente, uma noção de transmissão do código genético, garantidor da hereditariedade, mas também de oportunidade, de mutação, de transformação, lançada em direção ao futuro. Tanto na série Sementes quanto na Recém nascida, as formas retorcidas, elipsoidais, parecem evocar a estrutura esquemática de um ADN, como se contivessem em si as instruções genéticas de suas respectivas existências, de seus traços comuns às suas distinções, revelando nelas algo de infinito contido na forma inteira, descendente direto da topologia da fita de Möbius. Germinação e nascimento, etapas constitutivas das fases iniciais da vida, trazem à tona assim o mistério da continuidade e torcem a aparente coerência linear do processo de evolução do sujeito.

Sementes e Recém nascida, juntas, nos devolvem à série Nevoeiro através de um aspecto que lhes é comum: o fundo escuro, profundo, sombrio, sobre o qual as formas parecem menos se depositar do que lentamente acontecer. Sementes, nevoeiros e corpos recém-nascidos se colocam no mundo no limiar entre dois estados: a semente guarda uma vida que ainda não adquiriu forma; o nevoeiro torna visível uma matéria que a qualquer instante poderá novamente desaparecer; o nascimento lança para fora aquilo que até então existia envolvido por outro corpo. Em nenhum desses casos a transformação se dá em linha reta. Ela exige contrações, expansões, desvios, rupturas e dobras; exige, sobretudo, que uma forma abandone momentaneamente a segurança de seus contornos para que outra possa enfim surgir.

Renato Menezes
Historiador da arte e curador

Obras

Fluente condensação

Gi Monteiro, 2026

Senda

Gi Monteiro, 2026

As pedras e a cachoeira

Gi Monteiro, 2026

Sem título

Gi Monteiro, 2026