Em breve
Mecanosfera: Barbara Banida e Emer Freire
Curadoria
Lucas Dilacerda
Exposição
Mecanosfera: Barbara Banida e Emer Freire
Erotismo material
0. Grau zero
A VIDA É O SONHO DA MATÉRIA. MÁQUINA DE IMAGINAÇÃO. EXISTE VIDA EM TODO LUGAR. PRÁTICAS DE CULTIVO. PEQUENAS REGENERAÇÕES. O AMOR É A LEI FÍSICA UNIVERSAL. COEXISTÊNCIA PRECÁRIA. DEMOCRACIA MATÉRICA.
2026. Mecanosfera
Esta exposição aproxima as poéticas de Bárbara Banida e Emer Freire por meio do erotismo material. Aqui, não nos interessa a figura do híbrido, mas sim o grau zero da vida, ponto ápice do desejo, sem linguagem e sem separabilidade: o instante fulgor no infinito onde não há formas determinadas, na qual tudo que existe é, ao mesmo tempo, o mínimo de determinação e o máximo de possibilidades. O título da exposição, Mecanosfera, é um conceito dos filósofos Deleuze e Guattari que pensam o mundo como o conjunto de todos os agenciamentos (acoplamentos) maquínicos, biológicos, tecnológicos, sociais e naturais.
∞ Unidade mínima do real
Um agenciamento é um conjunto de elementos diferentes que se juntam para criar um funcionamento temporário. Por exemplo: o agenciamento humano-celular possibilita o acesso à internet e a troca de informações. É um agenciamento composto por corpo + mãos + dedos + smartphone + tela + plástico + bateria + silício + metal + olho + atenção + desejo + elementos visíveis e invisíveis. Por isso, um agenciamento conecta humano e máquina, natureza e tecnologia, biologia e sociedade. Desse modo, um agenciamento descentraliza o humano do centro da realidade, e evidencia a agência das diversas relações que atuam sem que nós percebamos. Nessa perspectiva, a mecanosfera é o conjunto de todos os agenciamentos que existem atualmente no mundo, em um constante movimento de conexão e desconexão.
5459 d.H.¹ A desmaterialização radical
Emer Freire se apropria de objetos industriais para desfuncionalizá-los e acoplá-los com outras materialidades para criar máquinas poéticas que subvertem os binarismos estéticos e ontológicos. Suas obras promovem contaminações entre sistemas tecnológicos e orgânicos, criando composições imprevisíveis que fogem das categorias tradicionais de pintura, escultura e instalação. Não é o híbrido que interessa ao artista, mas sim a desmaterialização radical da matéria. Diferente do movimento não objetual dos anos 1960 e 70, Emer se interessa por questionar a divisão, a separação e a hierarquização da matéria. Nesse sentido, a sua desmaterialização não se trata de uma simples recusa do objeto. O artista vai além e desmaterializa a própria noção de matéria, em sua raiz estrutural e, portanto, radical. Suas obras desmoronam as noções clássicas e modernas de matéria (o hilemorfismo aristotélico e o formalismo transcendental kantiano) e instauram uma nova noção de matéria pós-humana, na qual, diante de seus trabalhos, somos convidados a nos perguntar qual é o tempo e o espaço que pertence àquele corpo estético.
As obras Incubadora e Incisor funcionam como máquinas incubadoras de vidas desconhecidas, com uma estrutura que oscila entre laboratório científico, ficção científica e filmes de terror. As obras da série Exoesqueletos ficcionalizam esqueletos de uma espécie desconhecida, são fósseis de uma anatomia especulativa, na qual o desenho de aço negro escultórico funciona como osso, e a superfície pictórica funciona como carne. Já na obra da série Extensores, vemos uma pele artificial acoplada à uma escultura metálica, criando uma tensão entre o organismo elástico da pele e a geometria mecânica do metal. Já a obra Monólito residual se ergue como um totem alienígena, com um corpo geológico que o aproxima dos minerais, das rochas e dos ímãs, carregando uma capacidade eletromagnética capaz de atrair forças invisíveis e assumindo um estatuto quase sagrado. Emer opera como um pássaro que constrói um ninho: coleta materialidades diversas para criar um ambiente propício ao nascimento de uma nova vida. Desse modo, o artista tece uma crítica ao descarte e ao lixo produzido pelo tecnocapitalismo neoliberal, ao se valer de objetos improdutivos para reutilizá-los e reinseri-los no sistema da arte. Devolvê-los ao mundo de forma artística. Suas obras promovem uma democracia matérica, na qual diferentes materialidades instauram outras políticas do estar junto. O artista, quando criança, sonhava em ser um mágico: alguém que transforma a realidade. Esse desejo se realiza hoje como um artista alquimista, que mistura elementos e faz tecnofeitiçaria.
-7202 a.H.² Um vulcão se apaixona por uma estrela
bárbara banida cria cerâmicas de seres e paisagens ficcionais como uma maneira de fertilizar a imaginação contra o colapso climático. afinal, a crise ecológica é também uma crise da imaginação. ela é o reflexo de uma subjetividade em farrapos, que não consegue imaginar outros modos de vida para além da extração, do consumo e do descarte. mais do que nunca, enfrentar a crise climática exige, antes de tudo, força de imaginação: imaginar outros mundos e modos de vida sustentáveis para habitar o planeta. a artista recusa o pessimismo climático e as narrativas de fim do mundo, que informam que a vida na terra está com os dias contados, e que provoca uma ansiedade climática e o embrutecimento da imaginação. contra as forças que marcham contra a vida, bárbara fabula “erotar”: um planeta em estado de regeneração. diferente de como a vida evoluiu na terra, em erotar a vida nasce livre, sem divisões entre os reinos minerais, vegetais e animais. por isso, as obras de bárbara parecem formas amnióticas em estado de nascimento, dançando um movimento de crescimento e expansão da matéria e do espírito. cada obra é um portal para erotar. as suas esculturas em cerâmica são seres e paisagens alienígenas que habitam esse planeta; são corpos com anatomias aberrantes, abstratas e inclassificáveis, que resistem à captura do reconhecimento e da linguagem.
nesta exposição, bárbara apresenta a sua nova pesquisa sobre o amor. aqui, mais do que o amor romântico e idealizado, a artista investiga o amor como uma lei física e universal de atração entre corpos e matérias. no budismo tibetano, tara é uma deidade que apresenta o amor como uma forma de cura e cuidado. na mitologia grega, eros é o deus do amor. ele é a força sagrada, primordial e cosmológica que atrai os corpos e une o que foi separado. nesse sentido, o erotismo vai além da sexualidade e se torna um magnetismo que atrai materialidades que foram separadas. erotar é uma erótica. é uma história de amor entre as mãos e o barro, entre a terra e o fogo, entre a cor e a forma. para esta exposição, bárbara cria uma mitologia que conta a história de amor entre o centro da terra e as galáxias do céu. filhos dessa paixão, nascem vulcões que crescem em direção ao céu no desejo de beijar as estrelas. a obra totem do amor total, que funciona como um vulcão, e a obra redemoinho de aorta, que funciona como uma estrela, encenam esse erotismo material. as cerâmicas da série urê do amor aquático narram a história dos vulcões que nascem no fundo do mar. as figuras da série mulher em erupção performam uma zona de indiscernibilidade onde não sabemos se são mulheres se transformando em vulcões, ou se são vulcões se transformando em mulheres. já as pinturas feitas de cerâmica contam a história dos cometas que caem do céu no desejo de beijar a terra. bárbara nos ensina que o mundo se movimenta pela atração da matéria pela matéria.
1996. O idioma antes da matéria
O METAL SONHOU COM O BARRO. A MATÉRIA NUNCA ESQUECEU QUE ERA NATUREZA. NÓS ESQUECEMOS. TODA MATÉRIA TEM UMA TENDÊNCIA À SE DECOMPOR E SE FRAGMENTAR. ENTROPIA. METABOLISMO MATERIAL. PULSÃO DE MORTE. DESEJO DE RETORNAR À TERRA, AO CÉU, AO GRAU ZERO.
2026. Magnetismo
Mecanosfera acontece como dois planetas que se alinham. As poéticas de Bárbara Banida e Emer Freire se aproximam pelo espanto diante da matéria e pelo desejo de imaginar o que ela pode se tornar quando suas divisões deixam de funcionar. Se em Bárbara esse encontro acontece pelo romance, pela força erótica que faz vulcões desejarem estrelas, cometas beijarem a terra e o barro lembrar que nunca esteve separado da Natureza; em Emer ele acontece pelo terror da ficção científica, diante de máquinas, fósseis e matérias alienígenas que já não conseguimos reconhecer como naturais ou artificiais, vivas ou mortas. Bárbara olha para o cosmos e fabula mundos onde a matéria se apaixona; Emer olha para os resíduos deste mundo e constrói agenciamentos em que a matéria reaprende a viver. Uma produz mitologias de atração, o outro cria ecologias de contaminação. Mas romance e terror conduzem ao mesmo lugar: ao desconhecido que surge quando aquilo que parecia separado volta a se encontrar.
¹ d.H. depois da Humanidade, ou sem a Humanidade, logo d.H. = a.H.
² a.H. antes da Humanidade, ou sem a Humanidade, logo a.H. = d.H.
Lucas Dilacerda
curador
Artistas participantes
- Barbara Banida
- Emer Freire
Obras
Monólito residual
Emer Freire, 2026
Esporos do mundo a seguir
Bárbara Banida, 2026
Ritual de acoplamento II
Emer Freire, 2026
Totem do amor total
Bárbara Banida, 2026
Ritual de acoplamento III
Emer Freire, 2026